terça-feira, 17 de outubro de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha





ROUBOS


Na noite de 8 para 9/10/1936, noite de tempestade, os gatunos penetraram pelo telhado e entraram na casa de habitação de Cândido Augusto Esteves, comerciante, com estabelecimento no lugar do Cruzeiro da Serra, freguesia de Prado, descendo à loja, de onde roubaram chapéus, lenços, peúgas e ligas, tabaco, fósforos, papéis de fumar, queijo, marmelada, chouriços, bacalhau, e dinheiro que ali restava para trocos; calculou-se o valor do roubo em 600$00 (seiscentos escudos). // Notícias de Melgaço n.º 328.    

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     Em 1937 os “filhos da noite” penetraram na residência do padre de Chaviães, roubando-lhe a carne de um porco, azeite, lençóis e outras coisas mais. A autoridade do concelho prendeu para averiguações diversos indivíduos daquela freguesia (Notícias de Melgaço n.º 343).

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CASTRO, Manuel. Filho de Joaquim Nunes de Castro, guarda-fiscal, natural de Messegães, Monção, e de Angelina Rosa Rodrigues, lavradeira, natural de Pontepedrinha, Prado de Melgaço. Neto paterno de Luís Manuel Nunes de Castro e de Marcelina Rosa Alves; neto materno de João Evangelista Rodrigues e de Maria da Encarnação Rodrigues. Nasceu na freguesia de Prado a 9/3/1903 e foi batizado na igreja paroquial a 16 desse mesmo mês e ano. Padrinhos: a sua avó paterna e São Lourenço. // Aprendeu a profissão de serralheiro. // A 12/1/1936 iriam ser arrematados em hasta pública duas casas, ambas na Rua do Carvalho: a 1.ª por 2.000$00 e a 2.ª, metade pró-indiviso, com altos e baixos, por 500$00; além de uma leira na Fonte da Vila (produção de pão e vinho), por 2.000$00. Estes bens pertenciam ao viúvo António Rodrigues, que já morara na Vila, e iam à praça para pagamento do passivo descrito e aprovado no inventário feito por morte da mulher, do qual era credor Manuel Nunes de Castro, industrial. // A 15/3/1937 os ladrões assaltaram o seu estabelecimento comercial, sito no Largo Hermenegildo Solheiro (hoje rua), levando bacalhau, tabaco, sardinhas e atum em conserva, além de outros artigos, assim como 41$50 em dinheiro português e dez pesetas (Notícias de Melgaço n.º 347). // A 27/12/1938 o dito estabelecimento foi ameaçado pelas chamas; na cave existia um forno de pão, e foi aí que o fogo começou, ardendo parte das traves, contudo não teve grandes consequências (Notícias de Melgaço n.º 428). // Casou na CRCM a 24/8/1939 com Ascenção dos Ramos Rodrigues, solteira, doméstica, natural da vila, SMP, filha de Mercedes dos Prazeres Rodrigues (Graixa); casaram na igreja da vila a 15/2/1959. // Teve um Café e uma pequena fábrica de gasosas, além de uma loja de cal e tijolos, e outros artigos. // No ano de 1959 mandou construir um prédio na Rua Hermenegildo Solheiro, perto do edifício da Câmara Municipal, defronte à sobredita loja, onde residiu com a família, e em cujos baixos tinha comércio de materiais de construção civil. // Possuía uns terrenos no Barral, onde produzia um excelente vinho, segundo constava. Ele gabava-o muito: «o meu binho do Varral não tem igual.» // Morreu na freguesia de Ramalde, cidade do Porto, a 14/12/1982. // Com geração.  

domingo, 15 de outubro de 2017

AS ANEDOTAS DO JOAQUIM
 
Por Joaquim A. Rocha





     O marido estava muito preocupado porque a esposa passava o dia sentada no sofá. Um dia resolve dizer-lhe: 

- Ó mulher, sempre aí sentada, isso faz-te mal à saúde.
- Ó homem, como me pode fazer mal à saúde se eu já sou doente há imenso tempo! Só se me fizer mal à doença!

                                                                             *

A professora Clotilde naquele dia não atinava com o tema a tratar. Lembrou-se então de falar da fome em Portugal. Dirigiu-se a um dos alunos, chamado Pedro, apesar de pobre sempre bem-disposto, conversador, e pediu-lhe:

- Pedro, o que é que tu pensas sobre o assunto?

- Senhora professora: eu apenas posso falar daquilo que conheço. Por exemplo: lá em casa é só fartura: o meu pai está farto da minha mãe, a minha mãe está farta do meu pai, ambos estão fartos dos filhos, e estes estão fartos dos pais. Além disso, a minha avó está constantemente a dizer: «estou farta, farta
- Ai, Pedrinho: com tanta fartura, têm de começar a fazer dieta!
 
                                                             *

     Certo dia o senhor António resolveu ir à praça comprar peixe. A senhora Maria, peixeira há muitos anos, dotada de um vozeirão infernal, ao vê-lo aproximar-se grita: «ó freguês, olhe para este carapau fresquinho; veio hoje mesmo do mar
     O senhor António, habituado a fazer compras, analisa cientificamente os olhos do carapau, completamente vidrados, e diz com ironia: «ó senhora peixeira, esse até parece que veio do mar morto

 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

LINA - Filha de Pã
 
romance
 
Por Joaquim A. Rocha




4.º Capítulo

 
     Os meses foram fluindo. Lina já dominava todo o serviço, o magistrado contratara uma jornaleira, a Jesufina, para cuidar da horta, que agora estava um primor, «um brinquinho», como ele gostava de dizer. Tinha uma grande variedade hortícola. Quando as pessoas passeavam na Avenida olhavam para a horta do juiz e comentavam: «Que linda está! Aquelas couves, o tomate, os grelos, os pimentos verdes e vermelhos, as cebolas, até feijão verde tem!» Toda a gente admirava a horta do juiz.
    A Jesufina, aparentemente débil, esguia, mas rija como uma rocha milenar, nos seus quarenta e tal anos, tinha um orgulho tremendo naquela horta, tratava-a com esmero, com carinho, como se fora o filho que lhe morrera anos atrás, mas havia um senão: ganhara um medo colossal, danado, ao canzarrão. O bicho não simpatizava com ela e por isso, quando a via, ladrava-lhe sempre, mostrando-lhe uns dentes enormes e aguçados, prontos a morder, a estriçar aquele corpo. «Maldito cão» - resmungava ela.

**

     Lina tinha quase dezasseis anos. Os seus seios cresceram, as suas ancas já davam nas vistas. Os rapazes da Vila já andavam atrás dela, mas ouviam sempre a mesma resposta:

- Se se meterem comigo, ou me fizerem mal, digo ao Senhor Doutor Juiz.

     Eles temiam a autoridade. Julgavam que um juiz era uma espécie de rei em regime absolutista, um déspota – podia fazer tudo aquilo que quisesse: prendê-los, torturá-los, até matá-los! Afastavam-se dela, despeitados, dizendo-lhe:

- Pensas que és boa, que és importante, só por seres criada dum Senhor Doutor Juiz, mas há melhor do que tu. A nós não faltam raparigas. Adeus!

     Ela ficava absorta, afinal de contas era da mesma classe, gente pobre, que nunca teriam nada de sua legítima. Alguns até eram rapazes bonitos, empregados de balcão, aprendizes nas oficinas, e nos bailes sabiam dançar como ninguém. No entanto, ainda era nova para namorar, embora vontade não lhe faltasse, apetecia-lhe ser beijada, às escondidas, mas o patrão podia não querer que ela namoriscasse, até a podia despedir, e por outro lado ainda não esquecera os conselhos da mãe. Aquelas palavras sábias: «tem juízo, rapariga, não te deixes seduzir por um peralta, um malandreco da Vila», ainda não as esquecera.
 
 
     Nessa noite o juiz andava agitado. A namorada estava doente, tuberculosa, bebera demasiado vinagre para emagrecer, fizera dieta sem quaisquer regras, não aceitava ser gordinha, nédia, e agora fora internada num Sanatório, com poucas esperanças de melhoras. Já tinham tido contactos íntimos, embora irregulares, por causa dos mexericos, dos preconceitos seculares, mas agora ficara desarmado. Quando é que voltaria a vê-la? O mais certo era ela morrer. Teria de arranjar outra, mas como aquela não seria fácil. Filha de gente fidalga, rica, filha única, futura herdeira daqueles bens todos. Onde arranjaria outra igual? Faltava-lhe quase um ano para deixar Melcarte, depois iria para o centro ou sul do país, encontraria novas amizades, quem sabe, outros amores. Tinha 34 anos de idade, era saudável, boa figura, não faltariam pretendentes. Devia esperar pacientemente. Não lhe apetecia deitar-se. Foi até à sala, retirou um livro da estante, um romance de Eça de Queirós, O Primo Basílio, e começou a ler. Lina saiu da cozinha e foi-se despedir dele.

- Até amanhã, Senhor Doutor. Se precisar de alguma coisa é só pedir. Estou sempre às ordens.             

     Ele chamou-a, olhou para ela como antes nunca olhara, mirou-a dos pés à cabeça, e diz-lhe:

- Tenho andado tão ocupado que nem reparo em ti. Estás uma linda catraia. Deste um enorme pulo ultimamente.

- É bondade do Senhor Doutor. Eu não presto para nada. Sou pequenina e feia.

- Não te menosprezes. Chega-te mais para aqui.

     Pegou-lhe nas mãos, branquinhas, suaves, levou-as aos lábios, e pediu-lhe, com doçura:

- Senta-te aqui, nas minhas pernas; estou a precisar de carinhos. Tive um grande desgosto.

     Ela ficou muito corada, o sangue subiu-lhe ao cérebro, não sabia como reagir. Ele era o seu patrão e agora queria ser o seu amante. Que futuro seria o dela? Avançou um pouco, meteu-se entre aquelas pernas grandes, poderosas, e solicitou-lhe com meiguice:

- Não me magoe; eu nunca fui de ninguém, sou virgem.

     Ele estendeu os seus longos braços, abraçou-a com ternura, beijou-lhe os lábios, mexeu-lhe nos seios, rijos, redondinhos, com uns bicos entre o roxo e o vermelho, os chamados mamilos, quais cerejas em Maio, a explodirem de cor, depois levanta-se lentamente, pega nela como se fosse uma pluma e leva-a para a cama. Ela despiu-se, ficando completamente nua, e ele não resistiu àquele corpo intacto, pequeno mas bem torneado. Nem sequer pensou nas consequências. Cada coisa a seu tempo. Agora era um momento de gozo, de prazer infindo, de fantasias incomensuráveis. Estiveram entrelaçados quase toda a noite. Beijos mil, ternuras sem fim, palavras meigas.

- Meu amor: és a mais linda de todas as mulheres que já possuí. És um botãozinho de rosa!

- Ai Senhor Doutor: nunca imaginara que fosse tão bom. Serei sempre de vossemecê. Nunca hei-de querer outro homem na minha vida.

     E beijava-o ardentemente. Ardia em febre.

- Minha querida, jamais te deixarei. (E beijava-a com doçura, com meiguice, com paixão…)

     E depois de mil promessas, adormeceram profundamente.

 

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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





CASA DE ALOTA

     Sita na freguesia de São Paio de Melgaço. No século XVIII pertencia a Manuel Álvares Pinheiro e a sua mulher, Rosa Domingues. Uma filha deste casal, Maria Gertrudes, casou com Tomás Lourenço de Sousa Gama, da Casa da Serra, Prado, e aí ficaram a residir. Tiveram vários filhos, nascidos na Casa e Quinta de Alota. Tal como aconteceu com outras Casas fidalgas, devido à dispersão da família foi-se perdendo o interesse nela. Hoje, ou é uma ruína, ou foi recuperada por emigrantes.  




CASA DA AZENHA

     Lê-se na página 213 (Obras Completas, de Augusto César Esteves, volume I, tomo I, edição da Câmara Municipal de Melgaço, 2003): «Há no lugar da Portela de Paderne uma casa armoriada que, desde os alvores do século XX, pertenceu a António Xavier Ribeiro Figueiredo e Castro, só por a ter comprado por cento e cinquenta (150) mil réis a seu irmão Claudino (…) que por sua vez a tirara do domínio de Manuel Joaquim Vaz e mulher, daquele lugar, quando por dívidas lha levaram à praça em 1896.» E mais à frente diz: «Se nunca a simples posse, e muito menos o pleno domínio deste prédio, esteve nas mãos de Lourenço José de Figueiredo e Castro [pai do referido António Xavier] e de seus maiores, só um louco sonhador pode atribuir a esta família a pedra de armas, que ora ornamenta a fachada da Casa. O referido prédio pertenceu a D. Joaquina Clara de Sousa Menezes, senhora solteira, e por altura de 1877 moradora na Casa do Casal, Soutinho, Vale, Arcos de Valdevez.» Segundo o Dr. Augusto César Esteves, foram os antepassados desta senhora que mandaram construir aquela Casa.      








domingo, 8 de outubro de 2017

GENTES DE MELGAÇO
 
(microbiografias)
 
Por Joaquim A. Rocha





DOMINGUES, Abílio. Filho de José Bento Domingues e de Ana Maria Rodrigues. Neto paterno de João Manuel Domingues e de Maria Rodrigues; neto materno de Manuel José Rodrigues e de Ana Rosa Esteves. Nasceu em Castro Laboreiro a 22/6/1900. // Ainda criança foi viver para o lugar da Orada, SMP, com os pais, por terem comprado ali uma quinta. // No verão de 1916, ele e sua irmã, Maria de Jesus, fizeram exame de admissão na Escola Normal de Viana do Castelo, ficando distintos. // Em Julho de 1919 concluiu o Curso do Magistério com 16 valores (Jornal de Melgaço n.º 1256, de 27/7/1919). Em Outubro desse ano foi colocado em Parada do Monte (JM 1273, de 7/12/1919). No ano letivo seguinte foi nomeado professor interino para Castro Laboreiro (JM 1308, de 17/10/1920). Nesta freguesia é convidado pela família Alves “Carabel” para ser redator do jornal «A Neve». A notícia é dada pelo “Jornal de Melgaço” n.º 1310, de 7/11/1920: «Consta-nos que vai aparecer um novo jornal aqui no concelho…» // No Jornal de Melgaço n.º 1316, de 31/12/1920, por ironia do destino o último número deste jornal, dá-se a boa notícia: «para o nosso prezado colega Abílio Domingues, actualmente na escola de Castro Laboreiro, e redactor de “A Neve”, foi pedida por seu padrinho – o reverendo abade desta Vila – em casamento, a mão da menina Leopoldina Cândida (*), prendada sobrinha do nosso amigo Sr. José Maria Moreira, da Quinta das Amoras. Não podia o nosso colega fazer melhor escolha, atentas as qualidades da noiva, que são a garantia da felicidade no lar doméstico…» // Casou a 8/5/1922 com a dita menina, filha de Manuel Maria Afonso e de Clementina Rosa da Lama. // Em 1933 passou a ser em Melgaço o delegado do inspetor escolar de Viana do Castelo, em virtude do professor António José de Barros ter sido transferido para uma escola de Braga (Notícias de Melgaço n.º 211, de 15/10/1933); nesse ano lecionava em Chaviães, mas em 1936 transferiram-no para a sede do concelho (NM 415). // Foi 2.º comandante dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, fundador e presidente do Grémio da Lavoura, e vereador da Câmara Municipal. // O professor e poeta, Ribeiro da Silva, dedica-lhe um dos seus sonetos (ver NM 337, de 3/1/1937). // Em 1938 foi agraciado pelo Comando Geral da Legião Portuguesa com a medalha de dedicação «pelos serviços que tem prestado à Legião Portuguesa neste concelho.» E tão bons serviços o professor Abílio prestou que em 1941 o Governador Civil do distrito o escolheu para presidente da Câmara Municipal de Melgaço, lugar que ocupou durante pouco tempo, pois foi demitido por despacho do Ministro do Interior (ver NM 615, de 3/1/1943). Lê-se no Notícias de Melgaço n.º 623, de 28/2/1943: «A nossa terra é avara nas mercês e raro sabe recompensar os méritos e as dedicações. Alguns vultos mais fora do vulgar se têm destacado no capítulo das benemerências e do amor desinteressado ao concelho e aos progressos da nossa terra, mas a sua passagem pela órbita da direcção, ou do comando, bem depressa é esquecida e – o que é pior! – muitas vezes é apoucada, amesquinhada… Somos bem ingratos!... Desta mentalidade e falta de reconhecimento não está possuído o actual Conselho Municipal que, numa visão justa, oportuna e dignificante, sabe dar o seu a seu dono. Ainda bem! Porque é justíssima vamos transcrever a parte da acta da última sessão do Conselho Municipal em que este presta homenagem à acção do professor Abílio Domingues como presidente que foi da Câmara Municipal.» – Cópia da parte da acta da reunião do Conselho Municipal de 11/2/1943: «… em seguida foi apresentada pelo vogal Dr. João Luís Caldas a seguinte proposta: - que o Conselho Municipal, tendo em subido apreço a actuação do senhor professor Abílio Domingues, durante o tempo em que exerceu as funções de presidente da CMM, actuação essa de todo o ponto de vista dedicada aos interesses do Estado Novo e do público deste concelho, significa-lhe toda a sua consideração como homem público que foi, pois desempenhou as suas funções com grande dedicação, inexcedível aprumo e comprovada honestidade. Propõe um voto de louvor ao senhor professor Abílio Domingues; e, no caso de ser aprovado, se lhe comunique, bem como ao Director do Distrito Escolar, visto ser professor e delegado do mesmo.» A proposta foi aprovada por unanimidade. CMM, 13/2/1943. // E continua o jornalista: «Associamo-nos inteiramente a esta homenagem de justiça a quem tanto se dedicou ao bem do concelho, e ousamos propor que a nossa Câmara siga as mesmas pisadas do Conselho Municipal, fazendo consignar em acta o seu testemunho de louvor à acção do professor Domingues como seu ex-presidente. É uma prova de estímulo que muito contribuirá para o bem do município, afervorando mais aqueles que têm o encargo bem espinhoso de dirigir nesta hora os destinos públicos da nossa terra. Ao professor Abílio Domingues enviamos o nosso abraço de felicitações pela justiça que lhe é prestada.» Ruy de Castro. // A 1/1/1944 casou a sua sobrinha por afinidade Rosa de Jesus Afonso, com Joaquim Covas; Abílio e Leopoldina foram os padrinhos da boda. // Em 1950, e em nome da comissão organizadora da homenagem aos doutores Júlio Esteves, presidente da União Nacional em Melgaço e provedor da SCMM, e Carlos da Rocha, presidente da Câmara Municipal de Melgaço, comissão essa que promoveu um almoço no Hotel Ranhada, Abílio Domingues botou discurso inflamado e nacionalista, com vivas a Salazar e ao Estado Novo; estava presente o Governador Civil de Viana, o qual presidiu à cerimónia (NM 928, de 26/3/1950). // Em 1956 pediu a transferência e foi colocado numa escola de Braga, tendo sido substituído pelo professor Ascenção Afonso. Nessa cidade morou na Rua Conselheiro Januário, 107. // A 17 de Junho o professorado de Melgaço prestou-lhe «justa homenagem» (NM 1202, de 17/6/1956, e NM 1203, de 24/6/1956). // Era na altura tesoureiro da Santa Casa da Misericórdia. // Em 1958 pôs à venda a sua quinta das Amoras, sita entre São Julião e a Assadura. // Há quem diga ter sido um razoável mestre-escola, mas na década de cinquenta já estava envelhecido e apático. // A sua esposa faleceu em Braga a 15/11/1972 e ele morreu em Vila Praia de Âncora a 25 ou 26/8/1978, quando estava a banhos, mas ambos estão sepultados no cemitério da capital do Minho; ao lado da sua campa jaz a sobrinha por afinidade, Rosa Cândida Afonso (Melgaço, 31/3/1925 – Braga, 21/9/1997), e seu marido, Joaquim Covas (Monção, --/--/19--/ Braga, 26/12/1992), os quais foram seus herdeiros, por os tios não deixarem geração.
 
     /// (*) Era irmã do companheiro da “Maria das Adegas”, Alfredo Afonso, pai do Aristeu, dono durante algum tempo da Discoteca e Restaurante «Pegaso».

 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

ESCRITOS SOBRE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha





VIVA A REPÚBLICA

 

 

     No dia 1/2/1908 teve lugar no Terreiro do Paço, Lisboa, o regicídio, que vitimou o rei Carlos I e o príncipe herdeiro Luís Filipe. A monarquia agonizava. Manuel II, apenas com 19 anos de idade, e sem qualquer experiência política, nada podia fazer: a monarquia, dois anos depois, era já um cadáver! Na manhã de 4/10/1910 os navios de guerra Adamastor e São Rafael iniciavam o bombardeamento do Palácio das Necessidades, onde se encontrava o jovem rei. Paiva Couceiro pelo regime monárquico e Machado dos Santos, comandando os revolucionários na Rotunda, foram os heróis. No dia 5 de Outubro, e já com a família real a caminho do exílio, os republicanos formam um governo provisório, presidido pelo Dr. Teófilo Braga, com atribuições de Chefe de Estado. Contra ventos e marés, e pelo meio a grande guerra de 1914-1918, a 1.ª República lá se foi aguentando até 28/5/1926.

     Melgaço, tão longe das cidades, concelho rural, não possuía grandes tradições de lutas pela mudança de regime: república ou monarquia tanto se lhe dava. A confirmar isso mesmo está o fraco resultado das eleições de 1891: o partido republicano teve somente 94 votos! O ultimato inglês não chegara aqui! Mas também, ao fim-e-ao-cabo, quem mandava nesta terra era a fidalguia, os proprietários ricos, os «dons», sempre os mesmos! O pobre cavador, os artesãos, os mal remunerados funcionários públicos, os pastores das montanhas, limitavam-se a dobrar a cerviz ao senhor, ao amo todo-poderoso. E tão flagrante e evidente isto era que apenas no dia 8 de outubro o senhor Francisco, vice-presidente da Câmara Municipal, pequeno comerciante, ao passar por um grupo de jovens folgazões, apanha com a pergunta:

- «Senhor Francisco: para onde vai fugido?! Para as Carvalhiças      

- «Para a Câmara vou, rapazes, proclamar a República. Não quereis vir

     Como se nota, não existe nenhuma emoção, nenhuma alegria; antes pelo contrário, é a indiferença e a ironia que sobressaem deste pequeno diálogo. A ata elaborada após a sessão desse dia é de uma enorme hipocrisia. Nela se regista: «Pelo meretíssimo presidente foi dito que o fim desta sessão já de todos é conhecido – a proclamação da República Portuguesa…» E mais adiante: «Unanimamente foi dado um voto de louvor ao governo provisório e aos promotores da implantação da Liberdade!» Assinam: Francisco Pires, António Carlos Esteves, Francisco Caetano de Sousa, José Augusto Pires, António Xavier Ribeiro de Figueiredo e Castro. Todos, ou quase todos, monárquicos! Vira-casacas? Camaleões? Nem por isso, pois eles não precisavam de camuflagens, de mudar de ideias políticas, para estarem ao leme da governação concelhia. Só dois dias mais tarde, portanto em 10 de Outubro «… uma comissão improvisada de republicanos subiu as escadas dos mesmos paços do concelho…», ou seja: os “republicanos convictos” aguardaram uma porção de dias para se deslocarem à sede do município a fim de tomarem posse daquilo que legalmente lhes pertencia – o poder político! A ata saída dessa sessão extraordinária é por demais elucidativa: «… aberta a sessão pelo cidadão presidente foi dito que propunha se telegrafasse ao Governo Provisório da República e ao Governo do Distrito, dando-lhes conhecimento que a comissão republicana assumiu desde hoje a gerência dos negócios municipais deste concelho, manifestando o regozijo que o povo republicano do concelho manifestou, assistindo com grande entusiasmo ao acto da posse…» Assinam: João Pires Teixeira, João Eugénio da Costa Lucena, Justiniano António Esteves, Manuel José Domingues, António Xavier Ribeiro de Figueiredo e Castro!

     «Regozijo», «povo republicano», «grande entusiamo»… Tanas e badanas! Verdade, verdade, é que a mudança de regime não melhorou substancialmente a vida dos melgacenses pobres: continuaram a servir os mesmíssimos senhores, a emigrar como antes o faziam, a trabalhar de sol a sol por uma mancheia de nada. Em 1911, e com o objetivo de mostrar que afinal de contas existiam alguns bons republicanos, organizou-se uma «… luzidia marche aux flambeaux», presidida pelo Dr. José Joaquim de Abreu, integrada nos «… festejos da comemoração – cortejo entusiástico que, entre vivas e cânticos, percorreu as ruas da vila e vitoriou, aclamou e consagrou os heróis da revolução.» Levaram tempo a compreender que a monarquia tinha perecido; levaram ainda mais tempo a entender que as revoluções ganham-se ou perdem-se em momentos, tendo em conta, contudo, que elas vêm sendo preparadas com anos de antecedência. Os republicanos melgacenses portaram-se como São Tomé: «ver para crer

     Melgaço estava verde, muito verde, para o republicanismo em 1910. Não obstante esta conclusão, espíritos novos surgiram, cheios de fé num mundo diferente, desejosos de construírem a utopia, ou seja, o mundo ideal, mundo onde todos caibam! Não fora a guerra de 1914-1918, e as lutas partidárias fratricidas, e ter-se-ia sem dúvida alguma realizado o sonho dos primeiros republicanos: no campo da saúde, da educação, da habitação, dos transportes, da industrialização do país, etc. De qualquer modo, devemos prestar-lhes homenagem porque o sonho é como a semente: germina quando as condições lhe são favoráveis. Tal como aqueles estudantes de Direito (mais tarde os famosos juristas doutores António Durães e Augusto César Esteves) gritemos bem alto: glória a Melgaço! E viva a República!         

 

Artigo publicado em A Voz de Melgaço n.º 1026, de 1/4/1995.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

LEMBRANÇAS AMARGAS
 
romance
 
Por Joaquim A. Rocha








XVII

Entre dois fogos beijei a sereia

 
     Estas discussões entre mim e a minha mãe deixam-me sempre desolado. Se pudessem acabar… Agora, aproveitando o facto de ele estar de férias, vou contar ao meu irmão cenas de terror, acontecimentos que me apavoraram, que me deixaram marcas para toda a vida. Ouçam:

- Tinha eu dez anos, tu acabaras de partir para a capital do país. Sentado à mesa, pés descalços, esmagando com os pés pedras gigantescas de sal, encontrava-se o tendeiro: velho, bruxo e feiticeiro, capaz de quebrar nozes com uma só mão! Gritava como um possesso, pedindo aos maus espíritos, em altos berros, que se afastassem dele e daquela casa: «ide-vos, aqui não sois bem-vindos, ide para as profundezas do inferno, de onde nunca devíeis ter saído, ide para o mar coalhado, profundo, deixai esta casa e esta gente.» Eu chorava baixinho, tremia de frio e de medo. A mamã, disforme, espumava pela boca e de repente desatava aos gritos. Da sua garganta libertava-se uma voz rouca, áspera, que dizia: «não quero sair daqui, não quero.» Em seguida rebolava-se no chão da sala e as janelas abriam-se de par em par, agitadas por um vento estranho e violento. As meias portas batiam uma contra a outra com um estrondo medonho. Eu chorava, tinha vontade de sair para a rua, mas não podia, mão poderosa e cruel retinha-me ali, obrigava-me a assistir àquela dantesca cena. As cortinas da janela rasgaram-se em pedacinhos e voavam como pequenas aves. Depois o silêncio. O bruxo ficou com a cabeça deitada sobre a retangular mesa de pinho, cabelo desgrenhado, exausto, e a mamã estendida desajeitadamente no soalho da sala, desfigurada, com as pernas e parte da barriga à mostra. Desde que aquele homem-diabo tinha entrado em nossa casa estas cenas de espiritismo e feitiçarias repetiam-se com pontual regularidade. Falava constantemente no livro de São Cipriano, que eu nunca vi nem li, antes de ser santo teve um pacto com o demónio, segundo dizem, dizia que o tal livro continha segredos de tesouros escondidos, contou-nos que tinha ido uma vez ao monte de Santiago, aí estava, segundo ele dizia, enterrado um grande tesouro, joias, moedas em ouro, que levariam muitos meses a contar! Foi com ele uma mulher de corpo aberto, uma espírita, e um homem com uma enxada e uma picareta para desenterrar o fabuloso tesouro (talvez, quem sabe, daquele tempo em que sarracenos andaram pela Península Ibérica; aquando das investidas cristãs enterravam as joias junto às árvores para mais tarde, quando tudo acalmasse, as virem recuperar; por vezes alguns deles morriam e as preciosidades ficavam ali a aguardar que alguém as descobrisse).

     Esperaram que o sino da torre batesse as doze badaladas da meia-noite e começaram a escavar. De repente o céu ficou de várias cores, predominando a cor do enxofre a arder, os raios desenhavam figuras geométricas esquisitas, as faíscas eram tantas que pareciam capazes de incendiar todas as florestas do mundo. A mulher gritava como uma doida, parecia ter no seu peito todos os espíritos malignos da galáxia, espumava pela boca, os olhos saíam-lhe das órbitras, inchava como um sapo quando lhe dão a fumar um cigarro. O homem da enxada desatou a fugir pelo monte, todo borrado, o pânico apoderou-se dele, a mulher não aguenta a emoção e tomba desfalecida, com aspeto de morta. O velho feiticeiro, sozinho no meio daquele cenário sobrenatural, naquele palco de terror, capaz de arrasar os nervos aos mais valentes, abandona o local, o tesouro, fugindo a sete pés! No dia seguinte iria buscar o que ali deixara.

     Levantou-se manhã cedo, dirigiu-se ao sítio onde o presumível tesouro estaria escondido e ficou boquiaberto, pois estava tudo como quando lá chegara no dia anterior. Nem enxada, nem picareta, nem o buraco escavado, nem mulher, zero, absolutamente zero! Dava a impressão de que ali nada tinha acontecido. Pensou que se enganara, percorreu aqueles espaços circundantes, nadinha! Parecia um sonho. Resolveu ir ter com o homem da enxada: «ó tio Hipólito, então aquilo de ontem à noite assustou-o a valer.» O camponês olhou para o bruxo com temor, espelhado naqueles olhos pequenos e manhosos, e disse-lhe: «não me fale nisso, senhor Acúrsio, olhe que cheguei a casa em cinco minutos, e ainda era caminho para bem meia hora; voei como as aves!» «Vossemecê borrou-se todo, homem!» «Pudera! Aquilo assustava o mais destemido, não me convide para outra, vá o senhor Acúrsio sozinho, já está habituado a essas coisas da bruxaria

     O feiticeiro dirigiu-se depois a casa da medium, veio esta abrir-lhe a porta, olhando-o com azedume: «ó senhor Acúrsio, ia-ma arranjando bonita, por um triz não fui desta para melhor, aquilo é dose excessiva para o meu corpo, fique sabendo que fui transportada pelos ares até à minha porta. Fui, fui! Aquilo não está ao nosso alcance, deixe lá o tesouro, está muitíssimo bem guardado, o São Cipriano fez um bom trabalho, ninguém o tira dali, a não ser que ele assim o queira.» «Vossemecês são uns cobardes, aquilo que viram é só fogo-de-vistas, é só para assustar, se não fugissem, hoje estávamos todos ricos, nem saberíamos o que fazer a tanta moeda de ouro.» «Está bem, está! O mais certo era estarmos todos mortos, a caminho do cemitério, com espíritos daqueles jaez não se brinca

     Contava também histórias de ciganos, vendiam burros velhos por novos, davam aos porcos uma determinada erva, depois de ingerida acabavam por morrer, e então eles depois iam desenterrá-los e comiam-nos; os guardas prendiam-nos, mas eles terminavam sempre por se livrar das acusações; certa vez, não tendo nenhuma espécie de alimento, comeram a sua avó velha: «ai, mi abuela, mi abuela», gritava desesperada a pequenita Carmen, que adorava a sua avozinha. Histórias! Certa altura, um cigano novo roubou qualquer coisa a um lavrador e este acusou-o; a GNR prendeu-o, mas como era menor tiveram de chamar o pai dele. Então este virou-se para o ciganito e pediu-lhe: «fala a verdade Zé-Nega, diz tudo que sabes a estes senhores.» O rapaz, de imediato, replica: «meu pai, ainda aquela porta vá e venha se eu não estou dizendo a verdade.» Os guardas presentes, desconfiados, de pé atrás com a astúcia daqueles melros, ainda contrapuseram: «mas você está a pedir-lhe para ele negar!» «Nada disso! É mesmo o nome do catraio
 
     A mamã chafurdava na bebida, vinho e bagaço; dizia-se possuída de espíritos de pessoas que tinham morrido. A noite era para mim um calvário, aquela luz elétrica de 110 volts, cor amarelada, mal alumiava a casa (depois do feiticeiro sair deixou de se pagar e foi cortada pela empresa que a fornecia), as sombras dos móveis pareciam bailar a dança macabra dos mortos! Saía da escola primária a meio da tarde, ia jogar a bola com os colegas, à tardinha voltava para casa com o coração apertadinho, a assobiar, tentando desesperadamente distrair o espírito. A ceia podia decorrer sob o signo do terror, ou cenas de álcool, nunca decorria sob o signo da concórdia. Certo dia, levanto-me, como habitualmente, manhã cedo, cantavam os galos na capoeira, e vou caçar com as ratoeiras de madeira alguns pardais.

- Eu é que as deixei ficar quando fui para Lisboa.

- É verdade, já o esquecera. Tinha sido dia de feira na véspera e no chão ficavam sempre restos: grãos-de-milho, grãos de centeio, etc. Armei as ratoeiras, e ao fim de uma hora já apanhara onze pardais. Pedi à minha mãe que os cozinhasse para a ceia, onze já davam uma boa arrozada, ela quando queria cozinhava divinalmente, ia ser um verdadeiro petisco. Porém, eu não contava com a gulodice do velho bruxo; quando regressei das minhas brincadeiras (nesse dia demorei mais do que o costume, o jogo tinha-se prolongado, teríamos de encontrar um vencedor, estava mesmo renhido) uma incrível surpresa me esperava: a besta-fera tinha comido quase todos os pardais, nem os ossos se aproveitavam! Fiquei, como calculas, irritadíssimo, não quis cear nessa noite, tanto trabalho, tanto entusiasmo, para encher a pança àquele labrego, àquele barrigudo guloso. Ainda bem que a mamã se zangou com ele, ficámos mais mirrados de bens, mas mais livres, mais independentes, sem bruxedos, pensava eu; no entanto, ela herdou essa perigosa arte, continuando a queimar ervas nos cruzamentos, a esconjurar os espíritos malignos com sal e estranhas rezas, a berrar e a espumar pela boca como cão rafeiro, a levar-me àqueles terríveis e enfadonhos velórios. Afogava-se em vinho e em bagaço, embirrava com toda a gente, espiava, através das cortinas já rotas e sujas, a casa dos vizinhos, sobretudo a da que botava as cartas, a fim de descobrir segredos de alcova que depois revelava com pormenores delirantes. As suas amizades eram as pessoas rudes dos campos, as raparigas namoradeiras que procuravam nela a alcoviteira, a recadeira barata e inócua, pois tudo o que ela revelasse já ninguém acreditava, não tinham crédito as suas palavras, começou a arranjar moças novas para o ricaço da terra, o Atílio, em troca recebia umas sujas e magras moedas de níquel.

- E pensava eu que tinhas ficado na melhor, caramba, sofreste para raio! Eu, apesar de ter trabalhado que nem um mouro, não assisti, felizmente, a essas diabólicas cenas; mas também te digo uma coisa: comigo eles não faziam farinha, acabava-lhes depressa com essas histórias de espíritos e bruxarias, que fosse fazer feitiçarias para a terra dele, caramba, ia ele, ia tudo, pela porta fora, ali em casa é que eu não consentia que o bandido fizesse essas coisas.

- Isso dizes tu agora, queria ver-te lá, no meio daquela gente desfigurada, eu nem reconhecia a mamã, parecia outra, e então com aquela voz que não era a dela, era voz de homem mau, roufenha, assustava qualquer um, ainda hoje tremo só de me lembrar, na altura já nem sabia se era melhor estar em casa ou fora dela, a luz elétrica ia-se abaixo de vez em quando, era fornecida pelos espanhóis, fraca e incerta, quando se apagavam as lâmpadas só via fantasmas à minha volta, se ao menos tu estivesses em casa, os dois sempre seria melhor.
 
- É preciso tê-los no sítio, tu sempre foste um medricas, se tivesses ido, como eu fui, alta noite, por esses montes fora, com treze anos de idade apenas, os lobos a uivar, eu carregado com os alimentos para a semana, urinavas-te todo, pedias a todos os santinhos que te socorressem; eu ia afoito, a cantarolar, como se nada fosse comigo. Na maior parte das vezes levava por companhia o “Cabras”, mas semanas houve que não quis, ou não pôde ir, não compareceu, disse-me mais tarde que esteve doente, o que o tipo não queria era dar o corpo ao manifesto, que aquilo era a doer. E então, quando caía neve, nem queiras saber, os pés enterravam-se, mais de um metro de altura, os trabalhos tinham de ser interrompidos, não se podiam plantar os pinheiros com a neve a cair, ficávamos completamente isolados e impotentes.