quinta-feira, 17 de agosto de 2017

LEMBRANÇAS AMARGAS
romance
 
Por Joaquim A. Rocha



caixa de Pandora


XVI

No vício chafurdam alma e corpo


     Se eu tivesse um caráter violento poderia, perante uma situação destas, tomar uma atitude agressiva. Mas não, lamento-me, desfaço-me em lágrimas, imploro, interrogo-me: porquê este sofrimento?! Já sei que muitos leitores opinarão que eu deveria ter deixado há muito a casa da minha mãe, ir para a cidade, para o estrangeiro, sei lá. Eu tentei emigrar, mas não consegui o dinheiro necessário, dez contos de réis, quantia astronómica para o meu magro bolso; dentro de pouco tempo irei para a tropa, lá abrirei os olhos, pelo menos assim o espero. Bem, mas isso é outra história. Ouçam esta conversa e tirem dela as ilações convenientes:

- Vem da aldeia a esta hora? E bêbeda como um cacho! Que lástima! A cambalear como um borracho! Qualquer dia fica pelo caminho, atolada em algum barranco, sem que ninguém saiba onde se encontra para a socorrer, maldita vida esta, que mal eu fiz para ter uma mãe assim, valia mais não ter nascido, ou então ter morrido quando vim a este mundo, não sofria tanto, pode crer, não passaria por tantas vergonhas, tantos vexames, para que quero eu esse vinho, esses chouriços, não quero nada disso, vai tudo para a retrete, para o entulho, para o lixo, eu não quero nada disso, borrachona, borrachona é o que você é, tanto lhe tenho pedido, deixe as aldeias, fique em casa, faça-me o comer, trate-me da roupa, eu ganho para os dois, não precisa de nada, dessas coisas, de levar essa vida desleixada, mata-me de vergonha, já não vou aos bailes, ao cinema só vou à noite, escondo-me, tenho vergonha, as raparigas não me querem, nem em mim reparam.

- Olha que a neta da Cidália, a Bera, bem te quer, canté, o meu filho, sou bêbada, isso sim, mas não sou ladra, canté, se eu lhe dava o meu filho, canté, tens vergonha da tua mãe, olha que as outras bebem-lhe bem, mas metem-se em casa, os coirões, passam por senhoras, as putonas, que eu bem sei quem elas são, canté, se sei, badalhocas, metem-nos em casa às escondidas, são dois garrafões todos os dias, até acordam para beber, e eu é que sou a borracha, coirões, sem vergonha, que me chamem a mim bêbada, eu é que sei, depois passam por senhoras, porcas, bebem mais do que eu, sou borracha mas sou livre, não ponho os cornos ao meu marido, esses coirões, metem-nos em casa, um há dias até pela capoeira entrou, e os cornudos não sabem, eu é que lhas canto… A Georgina, quando tinha a pensão, até a filha Eulália vendeu a um caixeiro-viajante, vê lá tu, uma rapariga com apenas quinze anos de idade, meteu-a na cama com ele, um homem casado, depois ele foi obrigado a dar aos pais dela vinte contos de réis, nesse tempo era uma pequena fortuna. Que gente! Gastaram-no depressa, só luxos, e eu é que sou isto e aquilo, eu nunca faria uma coisa dessas, minha rica filha.

- Só sabe dizer mal das outras mulheres, se cuidasse da sua vida, se tivesse juízo, tino, se respeitasse os seus filhos e a sociedade, mas não, cada dia que passa se abandalha mais, afocinha na lama até não mais se poder levantar, só vive para a vinhaça, eu não sei se vou aguentar esta vida por muito mais tempo, são quase dez horas da noite, ainda não ceei, vou para a cama sem comer, fartinho de trabalhar, das oito da manhã às oito da noite, jantei à pressa, tenho tanto calçado para entregar, não sei o que vou fazer à minha vida, apetecia-me fugir daqui, deixá-la entregue ao seu destino, já sei que passado algum tempo davam-me a notícia da sua morte, é uma desgraçada e faz-me a mim desgraçado, os meus irmãos foram-se embora, eu é que tenho de aguentar este maldito viver, este martírio, este suplício sem fim.

- Borrachas, canté, queriam o meu Candinho, eu dou-lhes o arroz, uma até quer que a tratem por dona, canté, dona do que é dela, borracha, mas não sai à rua, emborracha-se em casa, eu conheço-a bem, querem passar por gente fina, nasceram tão pobres como eu.

*

- Já se sente melhor?

- Ontem foi de mais, que carraspana, foi na casa da Adosinda, estive a ajudá-la a preparar o fumeiro e depois pôs-me vinho à vontade, estava cheia de sede, comer não comi quase nada. Eu sei que podia beber água, mas não gosto, faz-me criar rãs no estômago.

- Então ouça com atenção: peço-lhe pela alma dos seus pais e dos seus irmãos, pelo que tiver de mais sagrado, que não volte às aldeias, eu já ganho umas moedas, as engraxadelas também vão dando uns patacos, as coisas estão a correr bem, esfalfo-me, é certo, mas vale a pena, prometa-me que não vai mais para as aldeias.

- Não posso dizer se serei capaz de lá não ir, são muitos anos, conheço aquela gente toda, precisam de mim para lhes cozinhar, para as vindimas, para as esfolhadas, para preparar o fumeiro, para tudo, eu sou assim, tenho pena daquela gente, se eu não for vêm-me buscar, olha se eu não aparecesse, amanhã já mandavam recado, eu vou ver se lá vou menos vezes, se não bebo tanto, não sei se me controlarei, tu daqui a três anos assentas praça, depois casas-te, a tua mulher já te fará o comer, agora eu sempre aqui fechada, sentia-me prisioneira, infeliz, sei que tens vergonha de mim, mas isto é superior às minhas forças, é o meu destino, cada qual tem o seu, e não o podemos mudar.

- Como é que me vou casar se fujo das raparigas, fiz dezassete anos de idade, sou um homenzinho, tenho vergonha, não quero que elas se riam na minha cara, ainda há dias uma se riu às gargalhadas quando você caiu ali na rua; não repara no pai dela, que é um borracho igual ou pior do que você, basta beber um copo de vinho e já fica bêbado, já não deve ter fígado, há quem diga que tem uma cirrose, anda sempre a cair de bêbado, qualquer dia fica estendido no caminho, mas a filha riu-se à gargalhada, senti imensa vergonha e raiva. É verdade que a Bera gosta de mim, eu também simpatizo com ela, mas só tem catorze anos de idade, é uma menina, você tem de se emendar, não pode continuar assim, que raio, faça isso por si e pelos seus filhos, pela família; os meus irmãos nem vêm passar aqui as férias, coitados, da última vez que cá vieram ficou-lhes de emenda, juraram para nunca mais, ficaram com a alma penalizada. Eu que aguente, sou o mais novo, mas não sou nenhum mártir para sofrer tanto, você tem de mudar os seus hábitos.

- «Burro velho não aprende línguas nem tem emenda.» Não é com esta idade que vou alterar a minha maneira de viver, posso tentar, mas acabarei sempre por cair no mesmo, a tentação é demasiado grande.         

- Disseram-me que há um medicamento na farmácia que acaba com esse vício, se quiser vou comprá-lo.

- Remédios da botica! Toma-os tu. Ainda me matavam, canté, medicamentos nem morta, nunca os tomei, não sou doente, o que tu queres é ver-me defunta.

- Que vantagens, diga-me, teria eu, seu filho, com a sua morte?!

- Vias-te livre de mim, da peçonha…

// continua...

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO

Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
 
cartas de um castrejo
 
 
26.ª - «Senhor Redactor: nem sempre, daqui, podemos dar louvores e por isso é para nós da maior satisfação registar o procedimento da Guarda Fiscal, deste e outros postos desta freguesia, abastendo-se de comparecer na festa da Senhora da Vista, nas Cainheiras. Tudo na melhor ordem e harmonia, na linda festinha – sem um senão, sequer. A música de Melgaço houve-se com tal galhardia que as rochas da Anamão ainda hoje repetem os ecos dos seus acordes…» (Correio de Melgaço n.º 211, de 13/8/1916). 
 
27.ª - «Senhor Redactor: não há escola agora. // A Guarda Fiscal tomou um aprumo louvável – decerto por imposição superior. // As searas estão ceifadas pela foice inclemente do segador. // O calor aperta, mas não tanto que nos torne as águas insalubres. // A Europa, ou melhor, o Mundo, convulsiona-se; e o castrejo, através de uns vidros foscos, por não ter retina de águia, vê estas misérias (…) e também vê as grandezas. E, como combatente rijo, duro, áspero e infatigável, a favor da terra que lhe foi berço, aborda, muito de mansinho, a próxima exploração duma mina (oh! que minas nós temos) de estanho, para purificar. // Abraçamos com íntima satisfação o Comendador, de volta da Ribeira. // O amigo Ventura foi para as Caldas de Monção.» (Correio de Melgaço n.º 212, de 20/8/1916).  
 
28.ª - «Senhor Redactor: foi o domingo passado, para nós, um manancial de esperanças, e sabe V. que é da esperança que o homem vive: - desde o imberbe que tem a sua namorada, de quem se julga adorado, até ao velho que, conquanto a todo o momento busque, curvando-se, a sepultura, faz pela vida. Bela e risonha esperança! Inconfundível sonho humano! É que os senhores Joaquim Oliveira, deputado da nação, Dr. Amaro Oliveira, administrador e ex-administrador do concelho, recebedor, Henrique Fernandes Pinto, José Durães e António Esteves, aqueles o presente e estes o futuro, visitaram-nos. Daqueles esperamos que, vistas as nossas reclamações, advoguem, no Congresso, as justíssimas causas que desafiaram as nossas cartas, e que de viso avaliaram, a propagação das nossas belezas horríveis – mas naturais e inconfundíveis… Destes esperamos também e com foros de legalidade que, amanhã, quando forem os homens a que aspiram, se recordem de que Castro Laboreiro, embora terra inóspita (…) alberga dedicações e almas generosas e… que não são à moda das de lá de baixo, rudes, mas belas na sua rudeza. Saibam, pois, S. Ex.ªs que nos confundiram com amabilidades e a distinção que se alia sempre à educação e instrução: - nós queremos escolas, pelas quais havemos sempre pugnado; nós não aspiramos ao caminho-de-ferro, para já, mas as riquezas que contêm os nossos montados cá no-lo trarão, ainda que não seja senão aéreo (…); nós não devemos pagar contribuições (em estado normal, claro – que as da guerra teríamos a menos que no-las dispensassem), porque, esta terra sáfara, precisamos regá-la com o próprio suor dos filhos e das esposas, para nos dar pão para dois meses (…) Que mais dizer? Só recordamos, que os olhos de V. Ex.ªs, mais argutos reconheceram das nossas extremas necessidades. Saía-se da missa do dia, e a voz do Comendador, autoritária e rija, convidou-nos a ir até às Lajes, à espera dos Ex.mos visitantes. Fomos, como bom castrejo, assistimos ao discurso de apresentação de S. Ex.ª, como às suas reclamações, promessas (milho e estrada), desfilamos ordeiramente, na vanguarda de cavalgada, assistimos ao café, em casa do Comendador, que precedeu o almoço, assistimos a este (…) ali mesmo junto à ponte – note-se que, no local, destacavam-se o nosso regedor, a governante do Comendador, este e eu. Depois dos últimos petiscos acompanhamos a simpática caravana ao castelo, entramos pela porta falsa, e vigiamos que alguns dos simpáticos moços e endiabrados nos não namorassem a querida moura que aquelas vetustas muralhas nos hão guardado há tanto tempo… Castro Laboreiro, 24/8/1916.»
// continua...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A MINHA RELIGIÃO E OUTROS ESCRITOS
 
Por Joaquim A. Rocha
 
 
 
 
 
A EMIGRAÇÃO E OS EMIGRANTES

 

     Estamos em Agosto de 2005. Todos os anos neste mês, a maioria dos emigrantes, naturais do Alto Minho, vêm visitar a sua terra natal. Os da primeira geração, quando partiram, nos anos sessenta do século XX, levaram na sua bagagem apenas um naco de pão e uns chouriços, ou umas fatias de presunto, e a vontade enorme de amealhar. A França, a Alemanha, o Luxemburgo, entre outros países europeus, além do Canadá, mais raro, era o seu destino. O franco e o marco eram moedas fortes e eles estavam dispostos a sacrificar-se ainda mais para juntarem alguns contos de réis. Não sabiam gastar, por isso a poupança era fácil nesse tempo. O objetivo era construírem na sua terra uma casa e adquirirem mais uns campos de cultivo – estavam fartos de serem pequenos agricultores ou caseiros. No início cozinhavam para eles próprios, tratavam da roupa, residiam em barracas, os chamados bidonvilles. Compravam nos talhos a carne de terceira categoria, as miudezas, aquela que os naturais rejeitavam. Vestiam sempre os mesmos trapos, roupa grosseira, somente ao domingo tomavam banho e mudavam a sua fatiota. Pessoas humildes, habituadas a um trabalho duro, quer no campo quer nas obras, mãos calejadas, estômago atrofiado, logo se adaptaram ao ritmo daqueles países; o mais difícil foi aprender aquelas línguas esquisitas, mas até isso superaram, inventando uma espécie de dialeto. Alguns deles tinham apenas a quarta classe da instrução primária, muitos outros eram analfabetos. Línguas não dominavam nenhuma, nem a sua própria. A sua cultura geral era muito rudimentar. A maioria deles nunca tinha saído da sua freguesia ou do seu concelho. O “salazarismo” regime político que vai de 1933 a 1974 (não levando em linha de conta a ditadura militar que o precedeu, bastante influenciada pelo professor conimbricense), mostrava pouco interesse em promover a cultura dos portugueses; quanto menos estes soubessem melhor seria para os governantes - dessa maneira podê-los-iam controlar mais facilmente. Salazar, simpatizante do fascismo italiano e do nazismo alemão, apoiante ativo de Franco, soube contudo conduzir a política externa portuguesa de molde a não se comprometer com ninguém. Dava uma no cravo e outra na ferradura, e assim ia levando a água ao seu moinho. Quando terminou a segunda guerra mundial, em 1945, esperava-se que o regime caísse estrondosamente, mas os americanos, por motivos estratégicos, seguraram o ditador. O que este concedeu em troca aos ianques toda a gente sabe. Para os americanos pouco importava que os cidadãos lusos sofressem na pele uma ditadura feroz e demoníaca, o que eles queriam, e conseguiram-no, era colocar em solo português algumas bases militares. Os embaixadores da América do Norte tornaram-se quase os donos do nosso país. Ainda hoje não sei por que deixaram concretizar-se o 25 de Abril de mil novecentos e setenta e quatro. No entanto, não permitiram, e ainda bem, que o PCP tomasse conta do poder. Eu, que morava na altura no Bairro da Mouraria, em Lisboa, tive virado contra a casa onde habitava um canhão instalado num vaso de guerra americano! Mas voltemos ao princípio: os emigrantes foram-se, pouco a pouco, adaptando a esses países ricos, dinâmicos, com regimes democrático-burgueses, aos quais deram toda uma vida de trabalho. Eles, que já quase tudo tinham sacrificado ao país, recebendo em troca umas côdeas de pão de milho e um bocado de toucinho rançoso, começavam agora a ver a cor do dinheiro. Em concelhos como Melgaço, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, etc., os camponeses auferiam uns míseros escudos por dez ou doze horas de trabalho diário, e ainda por cima eram tratados pelos médios e grandes proprietários como bestas de carga, quase como escravos ou servos de gleba. Os seus direitos eram praticamente nulos e a prepotência e ameaça eram constantes e pertinazes. Ai daquele que ousasse enfrentar o cacique da terra – era de imediato acusado de comunista, de desordeiro, e a Pide e a GNR logo tratavam dele. O Chefe, com a ajuda dos seus apaniguados, tinha a máquina bem montada, nada lhe escapava. Da capital do país, escondido na sua toca beneditina, tudo dominava. Não contou, porém, com a ousadia dos estudantes africanos. Amílcar Cabral e Agostinho Neto, entre outros, acharam que era altura de baterem o pé ao ditador. Desejavam a autonomia das colónias, liberdade, desenvolvimento económico. O presidente do conselho de ministros, em lugar de os escutar, mandou-os perseguir. Resultado: guerra colonial. Eu, que estive na Guiné-Bissau durante dois longos anos, sei o que isso nos custou. E é sobretudo por causa dessa maldita guerra, em três frentes: Angola, Guiné e Moçambique, que milhares e milhares de jovens fugiram de Portugal. Mais tarde mandaram ir as esposas, os pais, os irmãos… A maioria das freguesias, sobretudo as rurais, ficou sem vivalma. Só os velhos ali ficaram. O fenómeno da emigração já se verificara antes; que eu saiba, no século dezanove, e até nos séculos anteriores, embarcaram para o Brasil algumas centenas de portugueses, mas como esta jamais acontecera. E o ditador perdeu a guerra, porque os cidadãos lhe viraram as costas; mesmo aqueles que residiam nas chamadas províncias ultramarinas, não apoiaram abertamente as suas decisões – preferiam que tivesse havido uma negociação séria, um caminhar lento, mas seguro, para a independência. O mal está feito, não podemos voltar atrás, e por causa disso morreram e ficaram feridas muitas pessoas, quer de raça branca, quer de raça negra, destruíram-se imensos lares, adiaram-se sonhos alcançáveis. E também por causa das asneiras do filho de Santa Comba temos hoje no país centenas de milhar de africanos desadaptados, com problemas sérios, quase apátridas.

     Neste mês de Agosto saibamos nós, os que ficaram, receber de braços abertos os nossos emigrantes. Não os estigmatizemos devido à sua pronúncia ou dos seus modos, dos seus novos hábitos, pois quarenta ou mais anos de estrangeiro são muito tempo, uma vida, e que vida!          

                 Artigo publicado no jornal «Frontera Notícias» nº 14, de 6/8/2005.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

SONETOS
 
Por Joaquim A. Rocha






Regresso da doença crua, vil,

Como quem regressa da tempestade,

Dum fogo eterno, que sempre arde,

Com início no belo mês de Abril.

 
A malvada, sem nome nem perfil,  

Aumentou dez anos à minha idade,

Apagou em mim toda a mocidade,

Roubou-me imensa seiva e ceitil.

 
Não quero ouvir falar da tal ranhosa,

Mais soez do que fera enraivecida;

Mais satânica do que cão raivoso…
 

Tudo farei pra matar a tinhosa,

Pisá-la, mesmo depois de vencida,

Como se fora lacrau venenoso.

 

 

terça-feira, 18 de julho de 2017

A ADVERSIDADE POR MADRASTA
 
Romance de José Alfredo Cerdeira




// continuação...

     Num lugar abrigado entre dois montes, ao fundo do qual corria um regato bordejado por algumas leiras cavadas em socalcos até onde a montanha o permitia, viviam uma mulher dos seus quarenta anos, um rapaz dos seus quinze e uma moçoila que rondaria as suas dez primaveras, se bem que a estação das flores se escusasse a aquecer aquelas paragens com os seus dias mornos e a perfumar o meio ambiente com o aroma das plantas floridas. Sucedia que nenhuma das crianças era filha da referida mulher. O rapaz era seu sobrinho e a rapariga, sua afilhada. Desde tenra idade, todavia, se encontravam sob sua tutela, por falecimento dos pais de ambos e não terem família que deles tomasse conta. Embora a casa onde moravam, os campos que amanhavam e o rebanho serem pertença do sobrinho, por herança de seus pais, ele ignorava tal facto, atendendo a que sua tia sempre se intitulara dona e senhora de todos esses bens. Habituara-se a administrar todos os pertences do sobrinho, desde que sua única irmã se finara, visto que o cunhado há muito falecera, não desejando perder essas prerrogativas, mesmo após a maioridade do rapaz. Os usos da terra favoreciam as suas pretensões, pois nem inventário houvera, aquando da morte dos progenitores do moço. Existindo tio ou tia tomava o lugar dos pais e tudo corria dentro da normalidade, obedecendo os rebentos do casal finado ao familiar, como se de seus próprios pais se tratasse.

        Rosa dos Carvalhos, assim se denominava a mulher, apelido pouco usual na zona, onde os mais vulgares eram os Esteves, os Domingues, os Rodrigues e os Afonso, nutria forte aversão contra o sobrinho, devido a, nos seus tempos de juventude, ter namorado com o pai do rapaz e, na altura em que o casamento estava apalavrado, ele a deixara, trocando-a pela irmã. Do ultraje jurou vingança e, decorridos todos aqueles anos, mantinha-se fiel ao seu juramento. Como ambos os protagonistas da sua desdita tinham entregue a alma ao Criador, descarregava todo o fel que lhe inundava a alma sobre o fruto daquele enlace que tamanhos padecimentos lhe acarretara. Com quarenta e tantos anos, para cúmulo assoberbados de trabalhos, de privações de toda a ordem, de amarguras sem conta, que haviam feito dela uma velha precoce, não alimentava ilusões de vir a ser feliz e, muito menos, arranjar marido. Naqueles tempos, mulher que fosse repudiada, jamais alguém olharia para ela. Para uma aldeã, vivendo em lugares recônditos, onde os usos e costumes se mantinham intactos desde há séculos, o casamento era o alvo a atingir, dele dependendo o seu futuro. Enquanto novas, as raparigas lançavam o olho ao rapaz que mais lhe enchesse a vaidade, havendo, já, as mais práticas e sabidas a escolherem aquele que melhores condições de vida lhe poderia proporcionar. À medida que os anos iam passando, tornavam-se menos exigentes, servindo-lhes aqueles que possuíssem umas leiras e umas cabeças de gado. Após os vinte e cinco, agarravam-se a qualquer um, como derradeira tábua de salvação, ao darem-se conta que a frescura dos verdes anos se esvaecia. Na eventualidade de nem essa tábua de salvação surgir, invejavam as que lograram alcançar a felicidade, as que arranjaram amparo para a velhice, as que arrastavam pesada cruz. Em seu entendimento, por se verem enjeitadas, todas usufruíam melhor sorte do que elas. Naturalmente que semelhante mentalidade tende a desaparecer com o decorrer dos anos e o evoluir dos tempos. A juventude já contacta com outras pessoas, já estuda, já se apercebe da transformação do modo de vida. Os pais emigrados mandaram seus filhos estudar, ambicionando tirá-los dos trabalhos árduos que eles padeceram.

        Nas longas noites de invernia, quando a nortada cortante silvava, afigurando-se levar tudo de escantilhão, amontoando a neve de encontro às portas, Rosa dos Carvalhos, embrulhada num xaile coçado, acocorada à lareira, sonhava com a ventura que usufruiria, acaso tivesse casado com o homem que amara apaixonadamente e a trocara por sua irmã, sem uma explicação, sem uma palavra, abandonando-a simplesmente, como peça usada. Ao meditar sobre essa hipotética felicidade que lhe escapara por entre os dedos, mais acirrava o ciúme enraizado no íntimo, ao longo daqueles anos e, consequentemente, mais detestava o fruto daquela união que a ferira profundamente. Com efeito, o ciúme recalcado poderá levar uma pessoa a desfechos imprevisíveis, nomeadamente se rebitado numa alma deficientemente formada. Em tais circunstâncias, induzirá a actos de consequências assustadoras. Dava-se precisamente o caso da referida mulher não possuir uma formação moral minimamente exigida a uma pessoa de bem. O nível cultural dela era nulo, contactos com o mundo jamais mantivera, vendo-se circunscrita ao meio onde viera ao mundo. Para cúmulo, os padecimentos, a solidão, haviam cavado profundo abismo na sua alma. Nunca frequentara a escola por, na altura, ser considerada desnecessária e a distância ser quase intransponível. A sua vida religiosa resumia-se a umas quantas orações ensinadas por sua defunta mãe, ainda em criança. Em contrapartida, acolhia todas as superstições que campeavam na região, transmitidas de pais para filhos, ao longo das gerações. Nas aldeias isoladas, os padres exercem enorme influência sobre o povo, cabendo-lhes, portanto, moldar os espíritos mal formados, rebeldes e irascíveis. Desafortunadamente, na grande maioria dessas aldeias, o pároco não se dava ao incómodo de moldar o carácter, de aconselhar os paroquianos, de os guiar, procurando antes incutir no seu espírito a imagem de um Deus implacável que, pela mínima falta, atira uma alma para o fogo eterno, sem remissão. Não será, eventualmente, a maneira mais ajustada de conduzir o rebanho que lhe foi confiado. Pela vida fora, as pessoas descobrem que foram ludibriadas, especialmente aquelas que se aventuram pelo mundo fora e então o juízo que farão de quem lhes incutiu tais preconceitos não será muito abonador. Insinuar no espírito de uma criança determinada dose de medo sobre a justiça Divina auxiliará a evitar umas quantas travessuras, pelas quais, aliás, não virá o mal ao mundo. Desde que a dose seja administrada adequadamente, ainda será de aceitar. Agora, por tudo e por nada ameaçar com a ira de Deus, penso tratar-se de erro crasso. Muitos dos sacerdotes que exercem o seu múnus nas aldeias mais recônditas possuem avançada idade, vivem isolados, não acompanhando, naturalmente, a evolução dos tempos, estagnando no desenvolvimento e nas ideias, arreigando-se a costumes que a própria igreja ultrapassou, há muito. A hierarquia abandona esses seus membros, como coisa inútil, acarinhando os mais novos que, por seu turno, recusam essas freguesias perdidas nos confins do país.

 // continua...

sexta-feira, 14 de julho de 2017

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO
 
Por Joaquim A. Rocha




Macróbios
 
 
 
     Embora já não seja uma grande novidade viver até aos noventa e tal ou cem anos de idade, mesmo assim nem toda a gente consegue atingir esse patamar. Por outro lado, chegar a velho é por si só uma coisa boa, sobretudo quando a saúde não nos abandona e temos alguém que nos ajuda a suportar a velhice. No concelho de Melgaço existem muitos idosos, apesar da população ser pequena. O clima ali é favorável ao ser humano: tem rios, montes, ar puro; os alimentos ali produzidos são de grande qualidade. O vinho, a fruta, os legumes, são de primeira. 


DOMINGUES, Manuel José. // Lavrador. Nasceu na freguesia de Penso, concelho de Melgaço, por volta de 1764. // Morreu a 9 de Maio de 1864, em sua casa, sita no lugar  de Felgueiras, com mais de cem anos de idade, no estado de viúvo de Maria Ventura Vaz, e foi sepultado na igreja paroquial. // Fizera testamento. // Deixou filhos.

 *

DOMINGUES, Maria. Filha de Rosa Domingues, moradora no lugar das Lages. Neta materna de Manuel Domingues e de Maria Joaquina Vaz. Nasceu na freguesia de Penso a 7 de Julho de 1909 e no dia seguinte foi batizada na igreja da paróquia. Padrinhos: António Esteves Cordeiro e Rosa Clara Domingues, casados, proprietários. // Casou na Conservatória do Registo Civil de Melgaço a 26/12/1932 com José Domingues, de vinte e dois anos de idade, natural da freguesia da Bela, concelho de Monção, filho de Sebastião Domingues e de Ludovina Maria Rodrigues. // Enviuvou a 7/9/1987. // Faleceu na freguesia da Pena, concelho de Lisboa, a 20/7/2004, com noventa e cinco anos de idade.     

 *

ESTEVES, Rosa. Filha de Francisco Esteves e de Bebiana Esteves, lavradores, residentes no lugar de Paranhão. Neta paterna de José Esteves e de Maria Luísa Gonçalves; neta materna de Manuel José Esteves e de Clara Joaquina de Caldas. Nasceu na freguesia de Penso a 31/3/1884 e foi batizada nesse mesmo dia. Padrinhos: José Xavier de Castro e sua esposa, Mariana Esteves, rurais, do sobredito lugar. // Casou na igreja de Penso a 6/2/1910 com o seu conterrâneo José Esteves Reguengo, de vinte e quatro anos de idade, solteiro. // Ambos os cônjuges faleceram em Penso: o marido a 30/10/1925 e ela a 14/1/1981, com noventa e seis anos de idade. 

 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

SONETOS
 
Por Joaquim A. Rocha


quadro de Malhoa



Tenho alma de herói e de poeta,

Trago Camões metido no meu bojo;

Por ele ainda hoje ando de nojo,

Na sua obra tracei a minha meta.

 
Cupido alvejou-me com sua seta,

Comi carqueja, feno, muito tojo;

Por ele andei de cócaras, de rojo,

Segui às curvas numa longa reta.

 
Tudo isto que escrevi era mentira

Se eu vivesse em pura ilusão,

Chamasse pechisbeque à safira...

 
À urtiga rainha do sertão.

Eu não confundo cores com olfato,

Em tudo tem de haver luz e recato.